Friedrich: “romantismo”

O Romantismo, período aproximado entre a metade do século XVIII e metade do século XIX, foi permeado, nas artes, pelo contraponto “pitoresco” – que se exprime por meio de cores quentes e luminosas, pois a natureza é um ambiente acolhedor, propício, favorecedor dos sentimentos sociais – e o “sublime” – que se exprime através de cores foscas e pálidas, porquanto a natureza é hostil e selvagem, desenvolvendo nas pessoas o sentido de solidão. Estendeu-se pela Alemanha, Inglaterra e Itália, mas sua maior manifestação foi na França.

De acordo com Argan, na Alemanha, o contexto histórico em que surge este movimento, poderia ser descrito como segue:

“Como a história política, a história cultural alemã do século XIX também é a história do atormentado processo de unificação nacional, que será alcançado em 1870, após a guerra franco-prussiana. Se o patriotismo alemão nasce em reação às invasões napoleônicas, o problema da unidade nacional alemã é a busca de um princípio de coesão espiritual entre povos do mesmo tronco linguístico, porém politicamente divididos, com crenças religiosas, tradições polares e hábitos sociais diversos.”[1]

O Romantismo é um desses termos de difícil definição por conta da dificuldade de traçarem-se seus limites. Isso, não somente, porque o significado de um conceito estilístico se expande até tornar-se impreciso, mas porque muitos experimentos e antecipações surgem, antes mesmo do movimento em questão assumir a concentração e definição de uma verdadeira tendência estilística.

Historicamente, o Romantismo é tido como o movimento surgido logo após os neoclássicos, possuindo como característica predominante o sentimento que prevalece sobre a razão, em contrapartida à razão à frente do conhecimento, qualidade inerente aos clássicos.

F. W. J. Schelling[2] (1775-1854), ao defender que a filosofia é o único meio eficaz para se conhecer a arte, em verdade, sua filosofia da arte constituir-se-á, segundo ele, da potência mais alta[3] de seu sistema filosófico, anuncia a importância da alemã, do espírito, do sentimento (da “ideia”), a fim de se atingir a “verdadeira ciência do ser humano”:

“Toda verdadeira ciência do ser humano só pode ser buscada na unidade essencial e absoluta da alma e do corpo, isto é, na Ideia do ser humano, portanto, de maneira alguma no ser humano real e empírico, que é somente um fenômeno relativo daquela [da Ideia].”[4]

Expoente da poética romântica, no que diz respeito à pintura, principalmente de paisagens, é o alemão Caspar David Friedrich (1774-1840). Sua obra expressa toda a incerteza inerente à natureza e uma situação histórica permeada por um cataclismo espiritual.

Somente a “intuição artística” poderá reconstituir o “absoluto”. Dessa maneira, o artista concebe sua obra, passando a realizá-la em harmonia com suas ideias e seus sentimentos. A obra de arte deve atingir as duas modalidades do “absoluto”, pois a intuição artística termina no inconsciente e no objeto, porquanto a obra nascida de um esforço consciente, atinge uma objetividade, tida como uma presença exterior, como se emergisse da própria “natureza”.

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O elemento que se faz aparente na pintura romântica de paisagem é o infinito, o imensurável. Este é tanto explícito nas reflexões dos teóricos, incluídos os poetas e pintores, ou implícito nas próprias pinturas. Tal fato, obviamente, não significa que os artistas imediatamente anteriores ao Romantismo ignorassem a falta de limites da paisagem e que não dessem expressão a ela. Contudo, no Classicismo, este sentimento e esta vontade eram disciplinados e limitados. Comumente, a concentração do detalhe particular não permitia espaço para a percepção da amplitude de visão e grandiosidade.

É verdade que a abundância de particularidades pode ser também uma expressão do infinito, uma mais engenhosa e indireta expressão, mesmo assim, para o Classicismo, foi a maneira mais cabível de contemplação da paisagem. Através da ordem e da composição, a imagem da grandeza da natureza pode, indubitavelmente, ser apresentada.

Friedrich rejeitava tais métodos por entendê-los como “artificiais”, vaidade empenhada na busca da riqueza e da abundância. Fato que denota sua estética romântica.

Se, entretanto, antes do Romantismo a noção de distância e extensão, o que na realidade significam o infinito, não tivessem produzido um motivo para representar a natureza, não haveria, da mesma maneira, uma difusão de uma arte de paisagem durante este período. O que se conclui é que a pintura romântica de paisagem foi uma continuação da paisagem clássica. Saliente-se, contudo, que a ideia de “paisagem” como tal é essencialmente romântica.

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Uma das diferenças entre a paisagem romântica e a clássica reside no fato de que a primeira visa representar a extensão e a grandeza por meio de uma forma mais direta e simples, a fim de expressar a monotonia e a imensidão dos elementos naturais: o vazio dos céus nublados, do mar e das planícies.

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Outra diferença diz respeito à maneira que a atitude da humanidade se comporta face à natureza, a qual se encontra em contraste entre uma atitude ativa ou passiva no que diz respeito às coisas do espírito. Para os clássicos, a natureza em si, sem o elemento humano, não possuía expressão apropriada. E, por mais paradoxal que possa parecer, a grandeza e o sublime da natureza, para estes, serviam como reflexo da grandeza humana confrontada ao elemento natural. Daí o porquê da chamada paisagem “heroica”, ou seja, os conceitos morais humanos são projetados em uma natureza amoral.

Somente no Romantismo, a paisagem relega aos seres humanos um papel puramente contemplativo, finalmente, o silêncio da natureza passa a ser perceptível.

Este trata-se do essencial elemento da arte de Friedrich, expresso por uma pureza e uma exclusividade incomparáveis durante e depois de seu tempo. Este artista contemplava a natureza como se estivesse segurando a respiração.

Sua arte sofre pouca mudança no decorrer de sua produção, pois guarda em si o seu romance e elementos artísticos. Os temas abordados conectam-se com vários estágios de sua carreira e os lugares em que viveu.

Há que se atentar ainda que, apesar de existirem paisagens imaginárias em sua obra, o pintor tentava retratar cenários reais, incluindo até detalhes identificáveis. Retratava, enfim, o “humor” e os fenômenos da natureza, o que, antes dele, significou pouco para os pintores de paisagens, tais como: a neblina na praia ou sobre campos lavados, bancos de nuvens no céu noturno, iluminados por um brilho poente do pôr do sol e etc. O comum a todas estas representações de humor é que estão mergulhadas em tristeza, isto é, trata-se sempre do drama da força da natureza, a qual tortura a alma.

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Quando da visita, em 1834, ao estúdio de Friedrich, o escultor francês David d’Angers escreveu acerca do pintor: “Aqui está um homem que descobriu a tragédia da paisagem” e “a alma de Friedrich é sombria; ele entendeu perfeitamente que é possível usar a paisagem para pintar a grande crise da natureza”.

Contudo, mesmo frente à tanta grandiosidade, há que se observar que entre a pintura de Friedrich e a clássica existe alguma conexão. Há uma boa porção de deliberado racionalismo atrás das paisagens do artista. Elementos simbólicos, como em Ages of Life e ideias patrióticas, como em inúmeros retratos de heróis em tumbas e em seus projetos para monumentos funerários para aqueles que faleceram na guerra em 1813.

Há, ainda, na pintura de Friedrich, a tendência a uma narrativa, similar aos pintores chineses de paisagens, apesar das obras destes últimos não conterem o dualismo do primeiro.

As pinturas de Friedrich são representações de paisagens na sua mais primorosa pureza por dois motivos principais: primeiramente, porque foi o primeiro a perceber elementos sobre-humanos na natureza que podem ser pintados e, segundo, porquanto descobriu um método adequado para pintá-los.

A apreciação das forças humanas na paisagem, iniciada por Friedrich, na direção do fim do século XIX, atinge seu ápice com os trabalhos de Cézanne que vai além do dualismo romântico, confinando suas paisagens à natureza somente, excluindo o próprio homem com sua angústia visionária e entusiasmo na presença da natureza, seus anseios e sensação de desolação.


[1] ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Companhia das Letras, São Paulo: 2008, p. 168

[2] “Filósofo alemão, um dos representantes do idealismo alemão, assim como Fichte e Hegel.” (http://wikipedia.or/wiki/Schelling, em 13.12.2009)

[3] SCHELLING, F. W. J., Filosofia da Arte. Editora Universidade São Paulo, São Paulo: 2001, p. 26

[4] SCHELLING, 2001: 359

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