Escultura Barroca Espanhola: “drama e espetáculo”

Durante o século XVII, a Igreja Católica necessita combater a Reforma Protestante. Um dos ardis que utiliza é a imaginária, com sua produção controlada pelo Concílio de Trento. Assim, na busca de preservar os católicos em sua fé, a Contrarreforma far-se-á, primordialmente, por três vias: os sermões – já que era proibido ler a Bíblia -, os rituais e as imagens.

As imagens, em especial, continham, certas características peculiares, a fim de comoverem os fiéis de forma rápida e didática, tais como: sutileza, sugestividade, adequação ao gosto popular e, ao mesmo tempo, verossimilhança e, principalmente, dramaticidade.

Dessa forma, a imaginária barroca espanhola combaterá tudo aquilo que Lutero e Calvino buscaram apregoar, enfatizando-se certos temas, como por exemplo, a importância das boas obras frente à predestinação calvinista; a defesa dos sacramentos, primordialmente, a penitência eucarística; o Purgatório, a Paixão e o martírio de Cristo, relacionados com a santidade da Virgem Maria; os milagres e o sobrenatural.

O teatro religioso acontecerá na figura do templo, o qual deveria ser bem decorado para combater a austeridade protestante. Assim, este cenário utilizar-se-á de características estéticas, sensuais e teatrais, por meio do uso da luz, da música, do incenso, das imagens e dos ritos cerimoniosos, ou seja, tudo que atribua um quê de sobrenatural ao templo. Nesse período, as procissões serão outro meio largamente utilizado para chamar os fiéis à religião católica, isto é, a Igreja sai do templo e vai até a rua. Nessas procissões, as imagens são levadas para a rua. Nessas procissões, as imagens são levadas para a rua e muitas delas acabam tornando-se focos de devoção pela população.

Na Espanha, diferentemente do resto da Europa, a estatuária religiosa desenvolve-se por vias diferenciadas, à margem da influência de Bernini[1]. Tal diferença reside, essencialmente, nos materiais e técnicas empregadas – para executar-se uma imagem barroca espanhola eram envolvidos muitos profissionais que iam desde o aprendiz do ateliê até o policromador e estofador.

A policromia de suma relevância, a fim de aproximar tais imagens o máximo possível da realidade, como também o emprego de pelos naturais, unhas, peles de animais, olhos de cristal e até mesmo a fabricação de estátuas para vestir, as quais tinham somente a cabeça e as mãos esculpidas.

No que diz respeito à imaginária de procissão, elementos inovadores são inseridos: são imagens policromadas, que “andam”, ou seja, possuem certo movimento e mistério; as procissões eram feitas à noite com as imagens iluminadas pelo fogo e, além dessas, outros elementos integravam a procissão como arcos do triunfo, bandeiras e estandartes.

Outro diferencial reside no fato de que os envolvidos em tais ritos não eram gente da Corte, da nobreza ou do alto clero, mas sim pessoas do povo que se organizavam em confrarias com indumentária e santo de devoção próprios.

Por fim, os retábulos, também considerados verdadeiras esculturas, possuíam, da mesma forma que a imaginária, sua função didática. Inicialmente, sua talha e seu estilo seguiam os padrões romanos, bastante complicados, para, então, no século XVII, tornarem-se mais simples, com estrutura unitária e talha menos ornamentada.

Dois grandes focos da imaginária barroca foram as regiões de Castilha e Andaluzia.

O expoente, em Castilha, era a cidade de Valladolid, com tradição na escultura por conta de Alonso Berrugete e Juan de Juni, durante o século XVI.

Contudo, o maior artista da imaginária castelhana e “vallisoletana” é Gregorio Fernández, o qual possui um estilo bastante peculiar, tendo executado esculturas de fino acabamento. A este escultor interessa o realismo, assim presta especial atenção à anatomia – principalmente no que diz respeito às mãos e à cabeça de suas peça – e aos detalhes da pele quando executa suas obras. Desse modo, sua obra distingue-se pelas seguintes características:

  • os cabelos de suas imagens são penteados em mechas curtas e emplastadas, assim aparentam estar molhados e colados à cabeça da estátua;

  • as mãos são carregadas de expressividade;

  • as vestimentas são duras para contrastar com a superfície polida da pele; e

  • a policromia é fosca (característica geral da imaginária castelhana).

Exemplo de imagem castelhana é o Cristo Morto, o qual se encontra no museu de Valladolid. A partir dessa peça é possível observar o tratamento anatômico perfeito que contrasta com o pregueado geométrico. A cabeça caracteriza-se pelo expressionismo, com rosto desfigurado, feridas com sangue, com tanta morbidez, que se aproxima mais do patético do que do realismo. Ressalta-se que, enquanto na escola castelhana frequentemente representa-se o Cristo morto, em Andaluzia, o usual é representá-lo agonizando.

Na região de Andaluzia, por sua vez, dois são os principais focos da imaginária barroca: Sevilha e Granada.

Em Sevilha, o destaque é para Juan Martínez Montañés (1568-1648) e Alonso Cano, principal escultor da Escola de Granada, Montañés possui um estilo diferenciado de Gregorio Fernández, uma vez que o primeiro possui formação clássica tardia, mas especificamente maneirista, a qual se traduz nas figuras repousadas e solenes, mais realistas e livres de características patéticas. A policromia da Escola de Granada, ao contrário da Escola Castelhana, é dotada de brilho.

Obras emblemáticas de Montañés são:

O Cristo de la Cremencia

barroco espanhol 1Retábulo da Igreja de San Isidoro del Campo

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Inmaculada (La Cieguecita)

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Outras obras do artista:

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Em Granada, o artista de destaque é Alonso Cano (1601-1667) que, além de escultor, era também pintor e arquiteto, tendo inclusive desenhado parte da Catedral de Granada. Trata-se, pois, do ideal de artista renascentista, o qual deveria dominar todos os campos da arte. Sua escultura e pintura são um misto de clássico e barroco com influência italiana. Alonso Cano foi contemporâneo de Velázquez, tendo sido seu amigo e discípulo. Não apreciava a vida na Corte, tendo sido feito clérigo, trabalhou a serviço da congregação.

Algumas obras do artista são:

La Virgen de la Oliva

barroco espanhol 5 La Inmaculada del Facistol

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O artista executou uma gama infinita de obras ao longo de sua vida, em vários campos da arte. Abaixo alguns outros exemplares desta magnifica produção:

barroco espanhol 7Outro escultor da Escola de Granada é Pedro de Mena (1628-1688), o qual herda o estilo de Cano. Como exemplo de obra do artista, abaixo, seu San Francisco de Asís:

barroco espanhol 8Em virtude do extremo realismo e beleza, segue Magdalena Penitente:

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Por fim, na Escola Murciana, talvez menos emblemática, porém de grande apuro técnico e beleza, destaca-se Francisco Salzillo que nasce no seio de uma família de Nápoles o que suporia a influência de Bernini em sua obra, mas não é o que ocorre, haja vista que a tradição que lhe influencia é a napolitana. Inicou sua produção em virtude da influência paterna, com pequenas esculturas que representavam o nascimento de Jesus. Mais adiante, especializou-se, adquirindo, sua obra, traços de grande teatralidade, com expressões brandas dotadas de grande religiosidade – a religiosidade napolitana assemelha-se à espanhola – e beleza formal admirável. Como obras de destaque, sua Oración de Jesús en el Huerto e sua La Santa Cena.

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[1] Gian Lorenzo Bernini foi quem dominou a escultura barroca em Roma. Entre seus primeiros grupos escultóricos de grandes dimensões, o Rapto da Prosérpina (1621-1622) e Apolo e Dafne (1622-1624, ambas da Galeria Borghese, Roma) mostram seu domínio da escultura em mármore, criando efeitos realistas de grande tensão dramática, fortes contrates de luz e sombra e a ilusão ótica do jaspeado. O Êxtase de Santa Teresa (1645-1562, capela Corran, igreja de Santa Maria de la Victoria, Roma) resume a perfeição da alta teatralidade que caracteriza o Barroco. Bernini foi o artista predileto das papas, para quem realizou projetos mais ambiciosos no Vaticano. Tanto o imenso baldaquino (1624-1633), um enorme cibório ou dossel sobre colunas salomônicas que cobre o altar-mor da basílica de São Pedro, como a Cátedra de São Pedro (1657-1666), no abside da basílica, atestam com seu colossal tamanho e ricos materiais (mármore e bronze dourado) o suntuoso esplendor da Igreja católica. Bernini foi também um excelente retratista, como pode se ver nos bustos de Constanza Buonarelli (c. 1635, Museo dal Barguello, Florença) e do Papa Inocêncio X (c. 1647, Galeria Doria Pamphili, Roma). As fontes também foram representativas no Barroco. A fonte Quatro Rios (1648-1651) de Bernini, na Praça Navona, tem gigantescas estátuas e um enorme obelisco egípcio no centro. Bernini foi também notável e influente arquiteto do período Barroco. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Gian_Lorenzo_Bernini)

Nota:

Sobre o Barroco Espanhol, “episódio 2” do documentário: Baroque! From St Peter to St Paul’s, dirigido por Waldemar Januszczak para a BBC de Londres.

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