Pinacoteca: “arte ‘pompier'”

Na Pinacoteca do Estado é possível visitar salas especialmente dedicadas a pinturas de cunho realista com representação da vida cotidiana que denunciam hábitos, modos de vida, valores morais de um determinado grupo social com poder político e econômico. A fotografia teve um papel importante nesse momento. Trata-se da arte pompier (ou realismo burguês), muito difundida na Europa e nas Américas no final do século XIX e começo do XX.

Do ponto de vista temático, a arte pompier procura representar cenas verdadeiras, cujo objetivo é sempre passar uma mensagem. Pode ser entendida como documento de uma época. Do ponto de vista formal, ela utiliza-se de recursos neoclássicos.

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As academias de belas artes francesas passaram a expor esses trabalhos nos chamados salons. No Brasil, esta tradição iniciou-se na Academia Imperial de Belas Artes. J. B. Debret foi o idealizador da mostra inaugural em 1826.

A Pinacoteca possui um significativo número de naturezas-mortas do pintor Pedro Alexandrino Borges (1856-1942) que foi aluno de Almeida Júnior.

Convencionalmente, as naturezas-mortas eram solicitadas como complemento necessário na decoração de salas de jantar da burguesia. Gênero este de difícil abordagem, pois representa objetos não vinculados à narrativa que, silenciosamente, registram e documentam uma época e modus vivendi, assim como as aspirações de uma classe.

Apesar de ser conhecido como “mestre dos metais”, material em que não só consegue transmitir os volumes e as cores, como o perfeito reflexo de outros objetos, Pedro Alexandrino não é inferior quando pinta cristais ou frutas.

Trata-se de um pintor que representa o que vê (importância do modelo), utilizando, inicialmente, uma pincelada quase imperceptível. Com o tempo, sua pincelada mostra-se mais evidente, podendo ser observados empastamentos que indicam uma técnica bastante pessoal e marcada.

Essa passagem pode ser observada a partir da obra Frutas (1896) e Maçãs e uvas (sem data).

Em Frutas, quadro anterior a sua ida à França, pode-se observar que a luz parte da base direita da pintura, deixando o fundo escuro, com pinceladas pequenas e invisíveis de acabamento alisado, do que decorre a ausência de nuances.

As telas dessa fase são de pequenas dimensões e de composição simples, bem como os frutos (temática nacional) que são colocados na mesa não apresentam grande preocupação com a profundidade – pode-se dizer que, nesta fase, sua pintura possui ainda um caráter primitivo.

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Em Maçãs e uvas, obra de fase posterior à viagem do artista à Europa, os valores visuais como brilho, reflexos e sombras enfatizam a forma e o material de que os objetos são feitos; apesar destes parecerem dispostos de maneira casual, há uma clara composição triangular, alternância de luz e sombra na metade inferior da tela, com grande foco de claridade na toalha que chama a atenção para o reflexo da jarra.

A pintura expressa valores de simplicidade e naturalidade, mas que não disfarçam o refinamento estético tipicamente europeu que nos remete à burguesia (toalha bordada, louça pintada e frutas temperadas).

Com relação à técnica pictórica é possível observar pinceladas marcantes que expõem contornos pouco demarcados, dando a impressão que as figuras representadas fundem-se ao fundo da tela.

Na Sala Almeida Júnior[1], podem ser apreciadas obras como Leitura (1892) e Amolação Interrompida (1894).

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Em Leitura, no que diz respeito aos planos de composição, é possível notar que Almeida Júnior utiliza-se de planos “profundos”, o céu aparenta estar longe, quase “infinito”. Há também a existência de vários planos: o primeiro em que se encontra a moça absorta em leitura; outro, da casa grande e arvoredos; mais atrás, morros e uma pequena casa e, enfim, a linha do horizonte e o céu. É possível observar, ainda, o equilíbrio nas figuras representadas, principalmente, na posição da moça em contrapartida à localização da cadeira vazia, ou seja, há uma aparente simetria na ocupação do espaço. O tempo de duração da cena representada faz-se longo, infinito, como o cenário pintado.

Em Amolação interrompida, os planos de composição quase inexistem, isto é, há uma “tomada” principal em close – o caipira que tem sua ação interrompida – e, mais ao fundo, a casa e os arvoredos fazem as vezes de “cenário” para a movimentação da cena protagonista.

O tempo de duração da cena, a incorporação do instantâneo, é observado na obra em que a gestualidade do protagonista foi registrada numa atitude explicitamente fotográfica.

Em ambas as obras, tanto no que diz respeito aos planos de composição como à duração das cenas retratadas, suas peculiaridades residem no que diz respeito à atitude do receptor ao vê-las. Em Leitura, esta atitude é eminentemente contemplativa, enquanto que Amolação interrompida requer, mais do que mera contemplação, uma atitude participativa do receptor.

Também de autoria de Almeida Júnior são as obras Saudade (1899) e Recado difícil (1895).

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O óleo sobre tela Saudade traz a representação de uma mulher que chora olhando para um retrato. Nota-se como ela está posicionada dentro de um ambiente doméstico rústico, retratado realisticamente com o mesmo grau de minúcia de uma cena do gênero do século XVII holandês. Para o pintor o que parece importar é uma representação inerente ao seu viver. Ele dispõe a sua figura contra uma janela, cuja parede de tijolos traz um chapéu tornado diáfano pela ação do tempo.

Do lado esquerdo da figura, ao fundo da cena, há uma canastra encimada por um álbum de fotografias e por uma xale branco, cumprindo um comentário ao provável luto da mulher.

Percebe-se, ainda, que o artista compõe a cena mediante um sagaz jogo de ortogonais presentes na janela, na parede, no chão e na canastra que são contrabalançadas pelas diagonais da tramela, dos braços da mulher e da luz que invade a cena.

O pintor aqui articula seu esquema de ortogonais à fatura cromática, ou seja, empasta a tinta justamente onde quer que haja maior carga dramática, como na face e nas mãos.

Em Recado difícil, o que se observa é também uma cena do cotidiano, com a busca pelo realismo na representação. A dramaticidade da cena é evidente, principalmente na luminosidade que recai sobre o garoto, tornando-o o foco da cena. Como em Saudade, nota-se a captação de um instante.

Na Sala Almeida Júnior podem encontrarem-se expostos Caipira picando fumo e seu respectivo estudo.

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Bastante interessante é observá-los comparativamente.

A diferença básica entre os dois quadros é o clareamento geral a que o pintor submeteu a segunda versão. No estudo, os contrastes entre claros e escuros são mais marcados e os volumes em tanto mais acentuados, o que dá maior solidez às coisas e realça levemente a figura do caipira em relação ao fundo. Ainda, a figura do matuto é proporcionalmente maior do que no quadro final e, com isto, todo o espaço se articula com mais força e determinação.

Na tela final, não são só os tons que se aproximam, como a sombra introduzida no canto inferior direito (inexistente no estudo) aumenta, por contraste, a força do sol, por consequência, o movimento de aproximação de aproximação de todas as coisas, para o que o clareamento da paleta contribui decisivamente.

Diferentemente dos neoclássicos, a cor aqui empregada, em escala tonal quente, tem papel preponderante na obra; é mais do que mero complemento, trata-se de um verdadeiro veículo de sensações entre a tela e seu receptor, tais como a aridez e o calor que parecem transcender o cenário representado.

Duas outras obras do artista que seguem esse mesmo tipo de tratamento plástico são O violeiro (1899) e Apertando o lombilho (1895).

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Enfim, vale a pena uma visita à Pinacoteca do Estado para contemplar estes mestres da arte pompier, além de outros ali expostos, conhecer suas textura e cores, e de quebra tomar um cafezinho.

 


[1] Alemida Júnior foi, na Academia Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro, aluno de Le Chevrel (desenho) e de Victor Meireles (pintura). Naquela época, a Academia não aceitava o impressionismo. Após a conclusão do curso, graças a Dom Pedro II, partiu, em 1876, para Paris, conquistando prêmios de distinção na Ecolè Nationale Supérieure de Beaux Arts, tendo trabalhos expostos no Salon des Artites Françcais. Sua obra vai desde temas bíblicos e históricos, cotidiano da burguesia (arte pompier) e paisagens. A novidade temática é introduzida já na sua segunda fase, cultivando sempre o espírito da brasilidade na escolha do motivo para suas obras. Pouco a pouco, em contato com a terra e seus habitantes, irá substituir os temas bíblicos pelos regionais provincianos. Com esta nova temática, ele propunha um novo olhar direcionado para a simplicidade do homem rural, porém não menos elegante do que a aristocracia por ele já retratada. Passa, pois, a partir daí, a representar um imaginário único e instantâneo.

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