Barroco Rio de Janeiro: “da vila à cidade”

rio 1Da vila à cidade, fundada em 1º de março de 1565, por Estácio de Sá, na pequena várzea que fica entre os Morros Cara de Cão e Pão de Açúcar, dois anos depois, teve seu núcleo colonial inicial transferido para o Morro do Castelo (defesa contra invasões) por determinação do então Governador Geral da Colônia, Mem de Sá.

A cidade foi ocupada pelos emissários da coroa portuguesa e loteada entre jesuítas, beneditinos, carmelitas e franciscanos. Foram eles os responsáveis pela primeira feição urbana do Rio.

rio 2No século XVII, com a descoberta do ouro nas Minas Gerais, o Rio de Janeiro, cidade portuária que já então era a mais populosa do Brasil, passou a ser o eixo econômico mais importante do país, dada a sua localização para o escoamento do metal.

Do morro do castelo a população deslocou-se para as áreas mais baixas e a pequena burguesia, formada por comerciantes portugueses, buscou assentar-se no entorno da Praça VX, onde passou a funcionar o centro administrativo e político da cidade.

A atual Praça XV de Novembro (1889) foi centro de importantes acontecimentos do país. Foi Largo ou Rossio do Carmo e também Largo do Paço. Em aquarela de 1818, Jean Baptiste Debret retratou o Paço, as igrejas da Rua Direita, os prédios e o Chafariz da Pirâmide, este de autoria de Mestre Valentim, como o antigo cais.

rio 3É nesta época que o Rio ganha os Arcos da Lapa (ou Aqueduto da Carioca), aqueduto construído para trazer a água do Morro de Santa Teresa para o Largo da Carioca. As águas do Rio Carioca foram as primeiras utilizadas para abastecer a cidade. Além do rio, o aqueduto recebia água dos encanamentos das Paineiras, do Silvestre e da Lagoinha. Descendo as encostas dos Morros Cosme Velho, Laranjeiras e Santa Teresa, atravessava o vale entre este e o Morro de Santo Antônio.

A ideia de melhor aproveitar o rio surgiu durante o governo de Martim Correia de Sá (1602-1608), quando se pretendeu levar suas águas até o local de Nossa Senhora da Ajuda. Durante os governos de Tomé Correia Alvarenga, Matias da Cunha e Manuel Lobo, deu-se início e continuidade às obras de canalização que, em 1683, ficaram paralisadas – a construção do Aqueduto da Carioca, que tantos benefícios trouxe à população, desenvolveu-se em meio a grandes dificuldades e interrupções. Autorizado por Carta Régia, Gomes Freire de Andrade reconstituiu o aqueduto com pedras e deu-lhe melhor direção, ligando-o ao Morro de Santo Antônio. Em 1774, foram feitos reparos nos arcos, empregando-se granito brasileiro, argamassa de cal, areia e óleo de peixe.

O Aqueduto da Carioca assemelha-se ao das Águas Livres, em Lisboa, ambos remontando às suas origens romanas. As arcadas são constituídas de duas séries de quarenta e dois arcos de volta completa, atingindo 17,6 m de altura e 270 m de extensão.

Superados como aqueduto, em 1896, os Arcos da Lapa sofreram novos reparos gerais e, a seguir, foi feita uma vistoria com a finalidade de transformá-los em viaduto.

rio 4Também do mesmo período é o Passeio Público, jardim construído sobre o aterro da Lagoa do Boqueirão, projetado e supervisionado por Mestre Valentim da Fonseca e Silva (ca.1745 – 1813) – o maior escultor do Rio de Janeiro colonial e também considerado o primeiro paisagista brasileiro.

No local onde hoje encontra-se o Passeio Público existiu, até o final do século XVIII, uma lagoa chamada Boqueirão da Ajuda. Era a única da cidade, no período colonial que desaguava no mar, além de impedir o caminho que levava à zona sul. A Lagoa do Boqueirão, como outras lagoas da época, era um pântano pestilento, utilizado para o despejo de dejetos da população. Apesar da insalubridade, a lagoa era utilizada para banho como é possível observar na tela de Leandro Joaquim, onde crianças se divertem na água, em meio a bois que atravessam o charco.

rio 5Em meados do século XVIII, grande parte da população carioca foi atingida por uma forte epidemia de febre e gripe. A moléstia ficou conhecida como Zamparina, atribuindo-se como sua causa os miasmas provenientes da Lagoa do Boqueirão. Decide-se então aterrar o charco, ocupando o local com um jardim público.

A Lagoa do Boqueirão foi aterrada com o material proveniente do desmonte do Morro das Mangueiras, onde hoje está a Rua Visconde de Maranguape na Lapa. Realizado o aterro, foi imediatamente construído um cais para que as ondas do mar não invadissem o jardim.

A mão de obra empregada foi de vadios e detentos. O que pode ser explicado por conta da falta de recursos provenientes da Coroa, como registrou o vice rei Dom Luís de Vasconcelos no relatório das principais ações realizadas sob sua administração.

O Passeio Público foi construído entre 1779 e 1783, sendo considerado o mais antigo parque urbano do Brasil, pois até então existiam somente hortas e canteiros.

Foi idealizado como um jardim em estilo francês, totalmente plano, com ruas em linhas retas formando desenhos geométricos de tamanhos diversos. As duas ruas principais formavam uma cruz, com uma grande praça no centro. O Passeio, quanto à planta, foi classificado como hexágono irregular ou trapezoidal – forma incomum para a época, sendo consideradas como corretas as formas do quadrado, círculo, retângulo ou octógono.

O jardim era fechado por um muro alto, com janelas e grades de ferro. Na entrada, dois pilares de pedra firmavam um vistoso portão. No interior, foram instalados mesas e bancos para uso público.

rio 6No fundo do jardim, quatro escadas de pedra levavam a um belvedere que se debruçava sobre a Baía de Guanabara. O belvedere possuía cerca de 10 m de largura e tinha piso de mármore policromado. Junto ao parapeito, foram construídos sofás de alvenaria, revestidos de azulejos de inspiração mourisca. O terraço era cercado por uma balaustrada de bronze e contava com iluminação fornecida por lampiões abastecidos com óleo de peixe.

Era tido como jardim cortesão – que predominavam nas residências palacianas dos séculos XVI-XVIII, primordialmente na França, com organização de acordo com a estética barroca.

Nos tempos de Valentim, foram plantadas, no Passeio, espécies vegetais diversas como mangueiras, oitizeiros, palmeiras, amendoeiras e até uma araucária. O Passeio foi, como seria, mais tarde, o Jardim Botânico.

rio 7Mestre Valentim, além de planejar o Passeio, confeccionou todas as peças de arte, inclusive as de metal, as primeira fundidas no Brasil.

O maior destaque artístico é o Chafariz dos Jacarés, fonte abastecida no passado pelo Chafariz da Carioca por meio de canos subterrâneos. Situa-se na extremidade do jardim com fonte composta de um largo tanque de cantaria e por peças de bronze.

rio 8Há, ainda, a Fonte do Menino que era integrada por um menino de mármore que tinha nas mãos um cágado, através do qual era lançada água para um barril de granito. Na obra, havia a legenda: “sou útil, ainda que brincando”. Em 1841, a escultura foi substituída por outra de chumbo fundido que possuía asas de borboleta e o dobro do tamanho da original. É possível, até hoje, ver o gradil de ferro e o escudo de pedra de lioz, em estilo rococó. Duas pirâmides de granito carioca (1806) e o portão de entrada de ferro. Há outras obras espalhadas pelo parque, porém de autoria de outros artistas e diferentes épocas.

Enfim, o Passeio Público valorizou a região onde foi construído, de ideal iluminista – dava “ar puro” à população – tornando-se grande ponto de encontro da sociedade setecentista da cidade do Rio de Janeiro.

Também são importantes exemplares da produção colonial carioca, os painéis atribuídos a Leandro Joaquim (ca.1738 – ca.1798) que trabalhou com Mestre Valentim.

rio 9Em 1808, a vinda da família real portuguesa para o Rio de Janeiro produziu forte impacto na cidade. O rio saiu do anonimato, entrou no comércio internacional, com a abertura dos portos, e inaugurou um longo período de forte opulência e intercâmbio cultural, artístico e científico.

Mais tarde, a política do “bota abaixo” do início do século XX, além de expulsar do centro da cidade as camadas populares, empurrando-os para a periferia, produziu outro efeito perverso anos mais tarde, em 1922. Para instalar os pavilhões da exposição comemorativa do centenário da independência do Brasil, o governo apagou da paisagem urbana o primeiro núcleo da cidade, o Morro do Castelo. O que restou do “Desmonte do Castelo” foi a Esplanada do Castelo.

Berço histórico do Rio de Janeiro, antes o que foi somente um caminho que ligava o Largo da Misericórdia ao Morro de São Bento foi dividido em duas partes: a Rua da Misericórdia e a rua Direita – atual Rua Primeiro de Março. No século XVII, a Rua Direita era apenas uma trilha, mas já no século XVIII, era uma das ruas mais movimentadas da cidade. O local foi morada dos governadores e da família real portuguesa. Foi a primeira rua a ter suas casas numeradas e o sistema de mão e contramão. Em 1875, passou a chamar-se Rua 1º de Março.

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De simples rua de terra, com demolições e calçamento de pedras portuguesas, no início do século XX, o eixo da metrópole é transferido para a Avenida Central (1905). Atualmente, Avenida Rio Branco.

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Por fim, exemplo de moradia do Rio de Janeiro colonial é: a Casa do Telles, foi construída em 1730 e pertencia ao juiz de órfãos Francisco Teles de Meneses. Foi erigida em cima de um arco que dava acesso ao antigo Beco do Peixe. Hoje, a fachada da antiga casa da família Teles foi preservada e serve de entrada para um edifício de doze andares construído no século XX.

rio 12Também a casa onde residiu o Marechal Deodoro da Fonseca, como todas as residências construídas no início do século XIX, possui características típicas de um sobrado urbano residencial do período colonial. Foi construída em pedra, cal e óleo de baleia, materiais fartamente utilizados por portugueses nas construções em áreas litorâneas no período. Algumas paredes internas levantadas originalmente em taipa, pau-a-pique e madeira, mais tarde, porém, foram substituídas por paredes de tijolos nas diversas reformas realizadas. Sua fachada, entretanto, conserva as características originais, apresentando as ombreiras enquadradas em pedras e várias aberturas. Suas telhas foram feitas artesanalmente, moldadas nas “coxas” dos escravos.

rio 13Assim como todo sobrado do final do período colonial, a casa possuía dois pavimentos com funções bem definidas. O andar térreo era destinado à guarda dos carros puxados por animais (razão pela qual existe uma entrada central mais larga), à habitação de escravos da família ou mesmo para a instalação de atividades comerciais. O piso térreo era, assim, a parte menos nobre do imóvel, uma vez que era dedicado ao trabalho braçal, coisa desprezada pela sociedade da época que era escravocrata.

No andar superior ficava a verdadeira residência da família. Havia uma varanda na parte frontal de onde podia se observar o movimento da rua; a sala de receber, constituída de poucos móveis; um corredor que fazia a ligação desta para as alcovas, que eram os quartos, os quais eram desprovidos de janelas para o exterior, característicos dos hábitos lusitanos de recato familiar; e, finalmente, o principal ponto de reunião da família, a sala de jantar.

A casa localiza-se no antigo Campo de Santana[1], atual Praça da República.

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Por fim, o texto não esgota a produção colonial laica do Rio de Janeiro. Somente visa demonstrar o impulso que teve o setecentos, com o ciclo ouro, a colonização do interior que povoou e desenvolveu diversas áreas, alterando completamente o panorama em relação ao século anterior. Além disso, o Rio de Janeiro, se comparado ao restante do país, sofreu forte influência das artes de Lisboa que trouxeram à luz uma maior unidade e sobriedade aos seus conjuntos arquitetônicos e à produção artística.


[1] Campo de Santana é o nome originado da igreja que foi demolida em 1854 para dar lugar à primeira estação ferroviária urbana do Brasil, a Gare D. Pedro II. Em 1941, no lugar da antiga estação, foi inaugurada a Central do Brasil, edifício em estilo art déco. Foi palco de momentos históricos como Aclamação do Imperador D. Pedro I e Proclamação da República, além de manifestações públicas.

Referências

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